Calor do silêncio e da melancolia. Era o dia típico para cometer um
crime, era Natal, e estávamos lá com as mãos sujas de farinha penduradas como
arremedo do corpo, balançando de um lado para o outro. A gaveta lembrava todas
as tentativas de ajudar nas reuniões já extintas de família, nestas festas que
fecham o ano: garfos e colheres; e eu cheguei a ver facas de fio brilhante lá
dentro e peguei uma delas.
A mão bamba com a pele grosseira coberta de farinha, ovos e manteiga. Era
um dia de festa, então cozinhávamos todos os alimentos da despensa, além de
preparar massa para sobremesas adocicadas. Felizes por aquela noite dançamos mesmo
suados na cozinha, com o calor excessivo vazando do forno e com o gás – todas as carnes encontradas na
geladeira estavam sendo assadas simultaneamente. Dançamos como se estivéssemos
em um palco escuro, mas era dia. Éramos as estrelas miúdas daquele universo – meu
amor, tão maior – e a faca na minha mão (eu não a larguei em momento algum) era
uma longa fita de tecido cor de prata, como aqueles de ginasta artística. A
fita rodopiava belamente enquanto dançávamos, fazendo formas milagrosas pelo
ar. Suspendia-se na gravidade e rebaixava todos os cálculos dos físicos. Um
espetáculo. Até aquela hora em que me virei e, de propósito, a minha fita cor
de prata, de fio brilhante, atingiu seu abdômen e tudo se tornou como a paixão –
o leve desespero avermelhado vazando sem parar, e os seus olhos de surpresa e
compreensão, pois eu fazia a coisa certa. Então ventou do lado de fora e logo
anoiteceu. Era noite de Natal e havia a ceia.
Os cabelos tombaram pelo chão como uma apoteose invertida. Eu ouvi seu
crânio se chocar contra o piso, mas não parei de dançar um minuto sequer. Ninguém
estava lá para ver. Era noite de Natal e todos estavam comemorando com suas
famílias. Você teria gostado de ter visto, se tivesse conseguido manter os
olhos abertos por mais algum tempo. Mas esforçar-se nunca foi mesmo o seu
forte.
