Sábado, Dezembro 17, 2011

Olhos de gato


a todos aqueles que eu vi nascer;
à Lupita, que dorme ao lado do teclado, enquanto escrevo;
e à vida, que continua nascendo, todos os dias.


Era tudo: vida. Cinco vidas, em média, que chegavam de uma vez. Em cima da cama; do colchão que, ainda novo, ficou marcado com a nódoa avermelhada que logo se tornou marrom. Ou dentro de um armário velho, sendo descoberto algumas horas depois. Às vezes tudo corria em silêncio. Longe dos olhos também. Quando se percebia, lá estava: a vida. Como? A que horas? Ninguém sabia. Havia ocorrido e então começávamos a ouvir um fio fino de ruído, algo tão delicado como brotar de água nos olhos. A vida estava ali. E era preciso ver de perto, correr até a cama manchada de sangue, ou até o armário de porta entreaberta; era preciso ter certeza de que a vida brotava assim, discreta, sossegada, natural e algo de santa. E quando os olhos caíam sobre a vida, as mãos logo se assanhavam, querendo tocá-la. Pegar nas mãos: sentir o peso, a densidade daquela vibração tão frágil que acabava de, contra todas as contrariedades, assinar o seu contrato com o tempo. Durar. Viver é durar inteiro enquanto corre este contrato. E se pudesse pegar nas mãos, seria possível acreditar. Pensar em Deus; ou em alguma potência inominada que estivesse no controle de tudo aquilo: grunhidos, respiração, batimento cardíaco. Vida. Quando já nas mãos, era isso: pulsava. A pele muito fina, o corpo miúdo e enrugado, e um coração de estremecer todas as crenças anteriores. Ali estava a vida e na cama, ou dentro do armário, havia ainda mais quarto, tão miúdas quanto imponentes, assim como deveriam ser – e eram. Os grunhidos desarmônicos entre si. Vida querendo marcar-se, já fazendo as exigências. Na palma da mão rebelava-se: porque vida não quer a limitação; quer poder correr para a mãe, mas voltar atrás e se entregar a uma sombra que desvie o caminho a certa altura do percurso. Então logo aquela fragilidade pulsante era posta de volta ao seu recanto. E voltava a ser cinco, em média. Aproximando os olhos para ver de perto o que ocorria, todos os sentidos se aguçavam. Na vida, tão nova, tão recente, havia cheiro. Ao passo que as mãos pesavam, os olhos contornavam. E o olfato dava presença, imaterial, para sempre. De modo que a vida está aqui, agora. Estará sempre. E estava lá: quando uma essência orgânica, nauseabunda, envolvia a vida e dizia que viera de dentro – carne que vem da carne. E a mancha de sangue, e a saliva que corria através da língua sobre os cocurutos atordoados; pois a vida estava cega ainda. Demorava algum tempo, horas e nos casos mais graves, dias, para que a vida abrisse finalmente os olhos para amparar os seus grunhidos e provar que os seus sentidos estavam todos corretos. E os olhos, uma vez abertos, eram coloração de cinza e azul, ainda que, em alguns meses, fossem mudar para o amarelo. Então via. A vida via ao redor e se encorpava. Os grunhidos iam ficando fortes. Determinados. O corpo enrugado enchia-se de pelos. E o tempo. A fragilidade da vida transmutava-se na devastadora presença animal. A vida se impunha como orgânica a cada dia mais, e crescia assim, como se afastando da delicadeza do facho inicial, mas sempre envolta na recordação e na certeza de que por debaixo da agudeza das unhas, do ouriçado dorso, da violência dos dentes e da sonoridade do confronto, estava o coração que palpitou e fez pulsar todo o pequenino corpo, bem na palma da mão e que provou: estamos aqui.


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