Terça-feira, Dezembro 27, 2011

Romance marítimo

Olhei para o outro lado, para a outra janela. A mulher dormia no banco. Inclinei ainda mais o pescoço. Uma cortina de bruma cobria o mar. Era difícil saber onde terminava uma coisa e começava outra: o mar estava cinza, como a cortina de bruma. A paisagem como uma parede clara, porém misteriosa, porque havia profundidade.
Estava lá o que esteve antes aqui. Um deck. Um deck de madeira, simplório, marcando a profundidade na parede clara. Vazio, sob a chuva. Um deck de madeira simplório, vazio, sob a chuva.
Assim começava meu romance. Começava com uma imagem que nunca havia visto; que fui ver apenas ontem, quando resolvi olhar para o mar pela janela do ônibus. Não começa mais, porque justo a parte do deck, aquela parte do desespero de um deck dando para o mar, não pode mais estar ali, nas páginas iniciais. Está agora dissolvido, pelo romance todo. Dolorosamente dissolvido também em mim, até que, um dia, eu o publique - e o divida com vocês.

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