Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

Epitáfio


Calor do silêncio e da melancolia. Era o dia típico para cometer um crime, era Natal, e estávamos lá com as mãos sujas de farinha penduradas como arremedo do corpo, balançando de um lado para o outro. A gaveta lembrava todas as tentativas de ajudar nas reuniões já extintas de família, nestas festas que fecham o ano: garfos e colheres; e eu cheguei a ver facas de fio brilhante lá dentro e peguei uma delas.
A mão bamba com a pele grosseira coberta de farinha, ovos e manteiga. Era um dia de festa, então cozinhávamos todos os alimentos da despensa, além de preparar massa para sobremesas adocicadas. Felizes por aquela noite dançamos mesmo suados na cozinha, com o calor excessivo vazando do forno  e com o gás – todas as carnes encontradas na geladeira estavam sendo assadas simultaneamente. Dançamos como se estivéssemos em um palco escuro, mas era dia. Éramos as estrelas miúdas daquele universo – meu amor, tão maior – e a faca na minha mão (eu não a larguei em momento algum) era uma longa fita de tecido cor de prata, como aqueles de ginasta artística. A fita rodopiava belamente enquanto dançávamos, fazendo formas milagrosas pelo ar. Suspendia-se na gravidade e rebaixava todos os cálculos dos físicos. Um espetáculo. Até aquela hora em que me virei e, de propósito, a minha fita cor de prata, de fio brilhante, atingiu seu abdômen e tudo se tornou como a paixão – o leve desespero avermelhado vazando sem parar, e os seus olhos de surpresa e compreensão, pois eu fazia a coisa certa. Então ventou do lado de fora e logo anoiteceu. Era noite de Natal e havia a ceia.
Os cabelos tombaram pelo chão como uma apoteose invertida. Eu ouvi seu crânio se chocar contra o piso, mas não parei de dançar um minuto sequer. Ninguém estava lá para ver. Era noite de Natal e todos estavam comemorando com suas famílias. Você teria gostado de ter visto, se tivesse conseguido manter os olhos abertos por mais algum tempo. Mas esforçar-se nunca foi mesmo o seu forte.

2 COMENTÁRIOS:

Paul Law disse...

Texto obscuro e que me causou medo.

Não sabia deste seu lado, Bruna. Foi uma ótima leitura.

Um abraço

Bruna Maria disse...

Legal que tenha gostado, Paul! É sempre bom variar os tons...

Postar um comentário