Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

"Intravenoso", de Mayra Lopes do Couto






“Para me domesticar, é preciso ter talento e sorte. Tento livrar-me das amarras a todo instante. A não ser que me apaixone.” (Domesticada, p.30)



Contos – fragmentos

Intravenoso (Multifoco, 2011, 104 páginas) é o primeiro livro de Mayra Lopes do Couto. Embora seja classificado como um livro de contos, Intravenoso parece mais uma compilação de fragmentos, de clarões ligeiros em uma noite escura. Tais clarões – ou contos, como queiram – funcionam ora como constatações, ora como reflexões. Sentimentos, frustrações, certezas e incertezas surgem como que conscientes para a voz – indomável – que narra e que é narrada ao longo dos fragmentos.


Solidão: diálogo-monólogo de um amor


“Agora, tudo se resume a espaços que assumem formas de quadrados. Menos eu. Acho que li em algum lugar, alguma vez, que amar é redondo.” (Transbordante, p.25)


Os fragmentos que compõem Intravenoso podem funcionar como peças de um quebra-cabeça. Com as peças todas reunidas, lê-se uma história de amor. Cada peça funciona como um diálogo solitário, ou melhor, como um monólogo grafado solitariamente. Juntas, elas contam uma história. A narrativa se constrói, assim, se considerarmos uma visão geral do livro, a partir do que depreende o leitor dos clarões que iluminam temporariamente o breu desse amor que não deixa nada a perder ao título do livro: um amor de sangue, de vida – ou de morte; um amor intravenoso, enfim.
Para tanto, Mayra se entrega a uma escrita do fôlego. A particularidade de seu tempo, do ritmo de sua escrita, se faz presente na pontuação, na colocação das palavras, na organização dos parágrafos. Sendo uma escrita do fôlego, acompanhamos a respiração desarmônica, angustiada e vacilante através de suas pausas e continuidades – e isto é bem singular em seus fragmentos.



“Pelo meio das palavras e principalmente pela falta delas, por essas lacunas que eu adoro (e no fundo, faço questão absoluta de deixar), vou me fechando cada vez mais para dentro de mim e empurrando para fora, selecionando.
Eu empurro, eu faço a força oposta. Entrar é muito difícil. As brechas batem e voltam, sem que se perceba.” (Forçando a barra, p.50)


Me parece possível dizer que, com Intravenoso, Mayra testemunha uma escrita do corpo. Do corpo somatizado, compilando a frequência dos sentimentos, das emoções, daquilo que devasta. Com isso quero dizer: sangue e respiração desembocam na sensação de uma cicatriz escrita, ou de uma tatuagem ainda sensível sobre a pele. Os fragmentos são intensos como marcas e, mesmo quando não explicitamente incômodos, acumulam cortes, machucados, borrões. Em uma palavra: Intravenoso é um livro intenso, de entrega, de céu e de inferno. De um amor que cabe nas páginas do livro, tatuado, cicatrizando a voz que o profere tremulamente, mas sem hesitar.
Deixo, então, Intravenoso como a primeira sugestão de leitura de 2012.



p.s.: Justamente a intensidade da escrita de Mayra que me levou até Mayra. Há alguns anos, ainda na época do Orkut, encontrei o endereço de seu blog em uma comunidade da faculdade de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde ambas estudamos. Eu não sabia quem ela era, pois não erámos da mesma habilitação e nem do mesmo ano. Clicando no endereço, caí em seus textos, que eram esta espécie de conto, fragmento ou até de frases – que vibravam a cada linha. Passei a acessar continuamente e, não sei bem como, comecei a falar com ela pela internet. Até o dia em que a encontrei no corredor do 11º andar da UERJ e decidi cumprimentá-la. Depois, as oportunidades de nos falarmos e de trocarmos ideias foram aparecendo, como a conversa agradabilíssima que tivemos no extinto Salão de Chá do CCBB, e hoje somos amigas. Então, antes que qualquer maldoso associe essa resenha à gentileza pela amizade, saibam: antes de ser sua amiga, eu era sua leitora. (E acho essa forma de conhecer através da literatura simplesmente fantástica!)





4 COMENTÁRIOS:

pointlesswriting disse...

Ounnnn... estou sem palavras.
Olha, sinceramente, Bruna, acho que você pegou bem as coisas, não há nada que eu queira acrescentar e nem estou tendo aqueles impulsos que a gente tem de vez em quando de dizer que "não é bem isso".
O engraçado que a idéia de sentar e "escrever o livro" - que demorou bastante, você bem sabe, foi por causa das trocentas consequencias muito ruins de um término. Ao mesmo tempo, sou grata a essa pessoa por ter tido um papel tão crucial na minha vida e ter me impulsionado a escrever esse livro. Eu quase quis que esse livro fosse um presente - ainda que fosse doloroso/dolorido, porque muitas coisas doeram em mim. Mas não sei se há um interesse por ele.
Enfim, isso não importa, não é? ;)

:***

Bruna Maria disse...

Importa que o livro está ótimo, Mayra. Lembro da demora e eu ficava ansiosa por lê-lo. =)

Beijo!

Paul Law disse...

É legal conhecer mais autores talentosos. Bruna, obrigado por me apresentar a Mayra. Sucesso para ela!

Abraços

Bruna Maria disse...

De nada Paul! É muito bacana ler o que tem sido feito atualmente. =)

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